A história da Cátia Godinho

Desde os meus estágios em Saúde Materna e Obstetrícia que o aleitamento materno passou a ter um lugar de destaque nas minhas preferências. Fiz apresentações sobre o assunto, aprendi imenso e fiquei com a certeza de que, quando fosse mãe, queria muito amamentar os meus filhos.

Aos 24 anos, curso de enfermagem acabado de tirar, fui mãe pela primeira vez.

Um parto duro, sem qualquer apoio da equipa médica, apenas me diziam que fazia tudo mal. Não quis epidural e quase fui mal tratada por isso. Ventosa e episiotomia foram os vereditos finais.

Com o pouco apoio das profissionais da maternidade, todos os conhecimentos que tinha sobre amamentação foram preciosos para poder “sobreviver” às críticas. O meu filho chorava muito, e ouvi muitas vezes que, se calhar, não tinha leite suficiente ou o meu leite era fraco. Felizmente sabia que não existem leites fracos, e sabia que o meu filho não tinha fome. Era um bebé que mantinha o seu percentil (90) com leite materno exclusivo. No entanto, sei que se não fosse tão teimosa, a probabilidade de ter dado ouvidos às opiniões alheias era grande.

Comecei a trabalhar quando o Duarte tinha 3 meses, e ele mamou até aos 5 meses, altura em entrei nos turnos rotativos e ele começou a recusar a mama.

Quando eu tinha 29 anos, nasceu a minha filha e tudo foi bastante mais complexo. Um parto doloroso mas rápido, com uma equipa fenomenal, que me reconciliou com as maternidades. A Eva precisou de ser reanimada, mas tudo aconteceu na mesa, mesmo ao nosso lado. Cinco minutos de angústia, mas em muito boas mãos.

Gostei tanto da forma como fomos acompanhados no nascimento da Eva, que prometi a mim mesma que um dia iria trabalhar nesta maternidade. Dois anos depois assim foi…

Queria muito amamentar até aos 6 meses em exclusivo, mas tudo foi muito diferente daquilo que eu idealizava. A Eva tinha um refluxo gastroesofágico muito importante, e regurgitava muito, tanto que todos os dias tinha de fazer duas máquinas de roupa com a roupa dela: de manhã com a roupa da noite, ao final da tarde com a roupa do dia. Entre a roupa suja e a roupa a secar, cheguei ao ponto de não ter roupa dela no armário. Aos 10 dias de vida, consultei a pediatra pela primeira vez e a sugestão foi deixar de dar mama e passar a um suplemento espessado ou tirar com a bomba e colocar um espessante no leite, dando depois no biberão. Não aceitei isso e continuei a amamentar.

Aos 15 dias voltei à pediatra, e aos 20 dias, ao mês, etc. Com um mês e meio foi internada por desidratação. A pediatra continuava a recusar medicar a bebé, apesar do seu desconforto e mal-estar. Era uma bebé que chorava dia e noite, que recusava estar deitada, e a sugestão passava sempre por deixar a mama. Exausta, não desisti e continuei a dar de mamar até aos 4 meses, altura em que começou a perder peso. Foi sugerido desmame novamente, e ao ver a minha filha naquele estado, acabei por aceitar. O cansaço, a preocupação e pré-disposição natural das mães em sentirem-se culpadas de todos os males do mundo, fizeram com que eu pusesse em causa tudo aquilo em que acreditava. Este desmame foi o episódio mais traumático da minha vida de mãe, e acredito que também o foi para a minha filha que, ainda hoje, com 4 anos, tem uma relação muito efusiva comigo. Ela chorava no meu colo à procura da mama, eu chorava por “não poder dar”. O meu maior erro: não ter pedido ajuda a uma CAM.

Aos 32 fui mãe pela terceira vez. Um parto maravilhoso! Foram precisos apenas 16 minutos na maternidade para ter o Francisco nos meus braços! Foi o único dos três com o qual consegui fazer contacto pele-a-pele logo após o nascimento e isso foi tão importante!

O Francisco sempre mamou bem, teve um internamento de uma semana com 10 dias de vida, em que as enfermeiras do serviço de neonatalogia foram, simplesmente, fantásticas, e fizeram de tudo para que eu pudesse continuar a amamentar o meu bebé. O Francisco mamou em exclusivo até aos 6 meses e continuou até aos 8 meses – altura em que cheguei a casa do trabalho – o meu terceiro dia de trabalho, em que passava em média 16 horas por dia fora de casa – e lhe pus a mama na boca e ele olhou para mim com ar de quem não sabia o que haveria de fazer… Fiquei triste, continuei a propor a mama, mas nada a fazer, ele já não queria… Foi o desmame mais “natural” dos 3, embora tenha sido imposto pelas circunstâncias…

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